Em 2023, um grupo de garotas catarinenses, a mais nova com quatorze anos, passaram horas diante de imagens captadas por telescópios procurando pequenos pontos de luz que se deslocavam de maneira diferente das estrelas ao redor. Elas participavam do projeto de extensão Meninas na Ciência, do Departamento de Física da UFSC, e haviam entrado em uma campanha internacional de caça a asteroides promovida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em parceria com a International Astronomical Search Collaboration, da NASA.
Com o software Astrometrica, analisaram as imagens, identificaram objetos e enviaram os relatórios para validação. Ao fim das campanhas nacional e internacional, eram oito possíveis asteroides. Se as detecções forem confirmadas, as meninas poderão sugerir nomes para os objetos encontrados. O processo de confirmação pode levar alguns anos.
Criado em 2020, o Meninas na Ciência trabalha justamente para aproximar meninas e mulheres das ciências exatas, das engenharias e das tecnologias. O projeto promove visitas a laboratórios, oficinas, palestras e atividades práticas. No caso da caça aos asteroides, as participantes aprendem a usar ferramentas de pesquisa e fazem uma contribuição real à chamada ciência cidadã. Em 2025, o projeto já contabilizava mais de uma centena de participantes e 18 detecções nas campanhas anteriores.
A história ganha outra dimensão em Florianópolis, cidade que transformou a tecnologia em uma parte importante de sua identidade econômica. Em 2024, uma lei federal conferiu à capital catarinense o título de Capital Nacional das Startups. Um levantamento da Rede de Inovação de Florianópolis mostra que, em 2023, o setor de tecnologia já respondia por 25% do PIB municipal, com faturamento de R$ 12 bilhões e cerca de 38 mil empregos.
Esse ecossistema foi construído ao longo de décadas, com a participação da universidade, de instituições de pesquisa e de empresas de tecnologia. Hoje, boa parte dessa história pode ser vista ao longo da SC-401, no trecho conhecido como Rota da Inovação. É nesse cenário que está o Sapiens Parque, no Norte da Ilha.
Inaugurado em junho de 2024, o Passeio Sapiens ocupa 28 mil metros quadrados em Canasvieiras e reúne dois edifícios corporativos, o Centro de Inovação ACATE, restaurantes, áreas de lazer e uma Mercadoteca com diferentes operações gastronômicas. No mesmo endereço funciona uma escola internacional, inaugurada em janeiro daquele ano. O térreo do complexo foi pensado para combinar usos diferentes, enquanto a área externa reúne espaços de convivência, contemplação, brincadeira e eventos.
Formar pessoas para a ciência acontece também quando ela cresce cercada por aquilo que, um dia, poderá querer fazer. Quando passa por um prédio onde funcionam empresas de tecnologia e vê pesquisadores, profissionais e empreendedores trabalhando. Quando uma escola divide o endereço com um centro de inovação. Quando a ciência passa a fazer parte do dia a dia.
O Passeio Sapiens foi concebido dentro dessa lógica de mistura. O próprio Sapiens Parque apresenta o espaço como um lugar em que diferentes públicos podem trabalhar, estudar, circular e aproveitar áreas de convivência. A escola, nesse desenho, não aparece isolada do restante do complexo. É um local que instiga a criança a fazer perguntas.
Essa mesma curiosidade atravessa o Ponte de Palavras, encontro literário que acontece em Florianópolis entre 13 e 15 de novembro, com programação gratuita na Casa Hurbana, no Palácio Cruz e Sousa e na Casa da Literatura Catarinense. Entre os mais de 50 convidados está Ian Goldin, professor de Globalização e Desenvolvimento da Universidade de Oxford e diretor de programas de pesquisa dedicados a mudanças tecnológicas, futuro do trabalho e desenvolvimento. Para uma criança, a resposta pode começar com um livro ou aparecer no caminho entre a escola e a praça, quando alguma coisa chama sua atenção e ela resolve parar para olhar.









